Made in Portugal: O design que está a mudar o mundo

Por  Miguel Sur

Portugal está a tornar-se um nome de culto no design contemporâneo, mas não se trata de design de massas, nem de estratégias de marketing exuberantes. A sua ascensão acontece com uma elegância tranquila e coerência silenciosa: baseada em matérias-primas sustentáveis, produção consciente e uma estética que privilegia o essencial em vez do excesso. Esta é a revolução silenciosa do design português. E o mundo começa finalmente a ouvi-la.

©Wewood

De fábricas centenárias a ateliers minimalistas, das paisagens de granito do Norte ao sol do Alentejo, uma nova geração de designers, artesãos e marcas está a posicionar Portugal como uma referência global, combinando savoir-faire local com sofisticação internacional.

Um raro caso em que um material natural se torna símbolo de tecnologia limpa e sofisticação.

A cortiça como símbolo nacional e material do futuro

Portugal é o maior produtor mundial de cortiça, e soube transformar esse facto num trunfo de design e inovação. A cortiça já não é apenas um tampo de garrafa ou um chão de sala de aula: é mobiliário escultural, revestimentos de luxo, e componente-chave em projetos de arquitetura sustentável por todo o mundo.

Blackcork, criada pelo grupo AMORIM, é um laboratório de design contemporâneo focado em peças exclusivas em cortiça preta. As criações têm assinatura de designers portugueses como Toni Grilo, Daniel Vieira, Gonçalo Campos ou Luís Nascimento, e são uma celebração da forma, textura e leveza natural da cortiça em bancos, sofás, mesas e luminárias que parecem esculturas.

Wicanders, especializada em revestimentos premium, combina cortiça com outros materiais nobres (como madeira ou pedra) para criar pavimentos e paredes com isolamento térmico e acústico, mantendo um design sofisticado. A aposta na sustentabilidade e na performance técnica tornou a marca uma referência internacional.

Amorim Cork Solutions, por sua vez, trabalha em projetos de engenharia com cortiça expandida para isolamento, design industrial e arquitetura — fornecendo soluções para o metro de Londres, edifícios no Japão, ou casas-passivas na Califórnia. Um dos grandes marcos foi o Pavilhão de Portugal na Expo Xangai 2010, feito inteiramente de cortiça.

Em 2025, a cortiça portuguesa ganhou isenção tarifária nos EUA, como reconhecimento do seu impacto económico e ecológico um raro caso em que um material natural se torna símbolo de tecnologia limpa e sofisticação.

©Blackcork

É uma nova economia circular que alia tradição, tecnologia e consciência ecológica.

Têxtil técnico, minimalismo e ética local

Durante décadas Portugal foi conhecido pela sua indústria têxtil de baixo custo. Hoje reinventou-se, é fornecedor de marcas de luxo como Stella McCartney, Ralph Lauren ou COS. Mas o verdadeiro o ponto de viragem está no surgimento de novas marcas portuguesas com ADN próprio.

O Made in Portugal já não é apenas uma etiqueta de fabrico, é um selo de qualidade que começa a atrair olhares atentos de editores de moda, concept stores e consumidores que valorizam o essencial. E são cada vez mais as marcas portuguesas que se destacam, dentro e fora de portas.

ISTO., +351, La Paz, Naz, são nomes que partem da produção local, sustentada e transparente, com propostas que combinam conforto, identidade e longevidade. O foco está nos básicos elevados: uma t-shirt perfeita, uma camisa de linho com corte irrepreensível, uma camisola de malha que envelhece bem.

ISTO. aposta em peças básicas com cortes perfeitos, produzidas 100% em Portugal, com algodão orgânico e transparência radical: todos os custos de produção estão disponíveis online, item por item.

La Paz, nascida no Porto, inspira-se no universo marítimo português — camisas de linho, malhas de pescador, padrões subtis — sempre com uma estética relaxada mas exigente, perfeita para o novo luxo slow.

+351 é uma marca de roupa urbana criada em Lisboa, que cruza simplicidade com autenticidade portuguesa. As peças são feitas localmente, com fibras sustentáveis, e remetem para a energia solar e atlântica da cidade.

No Vale do Ave, berço do têxtil português, as fábricas reinventam-se com tinturarias sem água, fibras recicladas, e parcerias com universidades. É uma nova economia circular que alia tradição, tecnologia e consciência ecológica.

No segmento mais autoral, criadores como Constança Entrudo, David Catalán ou Hugo Costa exploram formas, texturas e narrativas visuais com arrojo conceptual, entre desfiles em Paris, Tóquio ou Copenhaga. A plataforma Portugal Fashion e os projetos de incubação do MODATEX ou da Bloom (plataforma de jovens designers) têm ajudado a posicionar Portugal como berço de uma moda ética, pensada e — discretamente — influente.

©Constança Entrudo

©David Catalán

Sofisticado, contemporâneo e internacional.

Mobiliário com alma, precisão e identidade 

Marcas como Wewood, Mambo Unlimited Ideas, Serip ou DelightFULL mostram que o design de interiores português pode ser simultaneamente sofisticado, contemporâneo e internacional. Trabalhando com madeiras nacionais, metalurgia fina ou vidro soprado, criam peças que estão a entrar em showrooms em Nova Iorque, Milão e Tóquio.

O destaque vai para o detalhe: proporções perfeitas, acabamentos manuais, equilíbrio entre forma e função.

Wewood aposta em mobiliário em madeira maciça 100% portuguesa. Cada peça é desenhada por arquitetos e fabricada por artesãos que tratam a madeira como matéria-prima nobre, dando origem a mesas, cadeiras e estantes com um design intemporal.

Mambo Unlimited Ideas, com base em Lisboa, cria peças vibrantes que cruzam design retro com um toque tropical. Cerâmicas feitas à mão, cores ousadas e estruturas metálicas fazem da marca presença habitual em feiras como a Maison & Objet em Paris.

Serip, especializada em iluminação escultórica, combina vidro soprado com formas orgânicas e acabamento artístico. Os seus candeeiros evocam ramos, gotas, minerais — quase como instalações de arte — e estão presentes em hotéis de luxo do Dubai à Coreia do Sul.

DelightFULL é uma marca com alma vintage e estética mid-century. Produz candeeiros inspirados em jazz, cinema e arquitetura dos anos 50–70, com acabamento metálico artesanal. Está presente em showrooms de Nova Iorque, Milão, Tóquio e no imaginário do design global.

©Wewood

©Mambo Unlimited Ideas

©Serip

©DelightFULL

©DelightFULL

Portugal é o 11.º maior exportador mundial de calçado.

Calçado: a nova pele do “Made in Portugal”

Portugal é o 11.º maior exportador mundial de calçado, mas destaca-se pelo valor médio por par, que está entre os mais elevados da Europa. A região entre Guimarães e Santa Maria da Feira, conhecida como “Shoe Valley”, é hoje um cluster criativo com investimento previsto de 600 milhões de euros até 2030.

Marcas como Undandy, Ambitious, Josefinas ou Lusquinos já são vendidas em concept stores internacionais. A APICCAPS (associação do setor) lidera uma das mais sofisticadas campanhas de rebranding da indústria portuguesa, apostando em storytelling, moda e inovação.

Fly London, marca nascida nos anos 90, combina irreverência britânica com fabrico 100% português. É uma das marcas portuguesas mais exportadas e, desde 2010, expandiu para vestuário e acessórios com o mesmo espírito urbano e alternativo.

Undandy é uma marca de calçado masculino personalizada: o cliente escolhe materiais, cores e acabamentos online. Produzido artesanalmente em Portugal, com design clássico e entrega global, é uma marca nativa digital com ADN slow luxury.

Ambitious aposta num calçado masculino contemporâneo, confortável e versátil. Usa peles de origem ética e materiais reciclados, com linhas minimalistas e performance urbana. A marca já está presente em concept stores em Berlim, Seul e Londres.

Luis Onofre é sinónimo de elegância e precisão no calçado feminino de luxo. As suas coleções, fabricadas em Portugal, aliam design sofisticado a acabamentos artesanais e são presença habitual em passerelles e boutiques internacionais. Um nome que representa o lado mais refinado do “Made in Portugal”.

©Undandy

©Luis Onofre

©Undandy

©Lusquinos

©Fly London

©Josefinas

Design thinking e inovação invisível

O design português não vive apenas na estética. Vive numa forma de pensar.

Está em empresas tecnológicas que apostam em UX/UI com foco no utilizador real, como a Defined.ai, a Feedzai ou a Unbabel. Está em marcas que pensam o packaging como extensão da experiência sensorial como a Claus Porto ou a Benamôr.

Está na gastronomia, onde chefs como Pedro Pena Bastos ou Alexandre Silva desenham menus como narrativas.

Menus gastronómicos pensados como narrativas.

©Alexandre Silva

Está na hotelaria, onde projetos como a Casa Modesta, no Algarve, ou o Casa do Rio Wine Hotel, no Douro, provam que o luxo está no silêncio, na vista, na toalha de linho bordada à mão.

E está na arquitectura contemporânea, com nomes como Manuel Aires Mateus, Siza Vieira ou Eduardo Souto de Moura, que pensam o espaço como gesto silencioso. Porque o novo design português não se impõe, propõe.

©Casa Modesta - PAr Plataforma de Arquitetura

©Fundação Iberê Camargo - Siza Vieira

©Casa das Histórias Paula Rego - Eduardo Souto Moura

©Teatro Variedades - Manuel Aires Mateus

O luxo da subtileza

O “Made in Portugal” já não é apenas sinónimo de fabrico. É sinónimo de cultura visual, de inovação ética, de sofisticação sem ostentação. É um design que respeita a matéria, valoriza o tempo e privilegia a durabilidade.

Portugal está a mudar o mundo do design. Silenciosamente. E com muito bom gosto.

©Wewood