10 cidades portuguesas com alma: Dormir, Comer e Sentir
Por Manuel Fernandes
Portugal tem cidades que se tornaram marcas globais. Lisboa, Porto, Faro… nomes que saltam de todos os rankings de tendências, destinos de escapadinhas e listas dos “melhores lugares para visitar”. Mas o sucesso trouxe consigo efeitos colaterais: o turismo excessivo, a gentrificação dos bairros, a expulsão da vida local para as margens.
Foi por isso que decidimos olhar para outras cidades portuguesas, menos mediáticas, menos gentrificadas, mas cheias de carácter, onde ainda é possível sentir o pulsar autêntico da vida local.

Braga
Voltámos o olhar para cidades portuguesas menos óbvias.
À procura de cidades com onda e com vida
Há zonas inteiras das grandes capitais portuguesas (Lisboa, Porto ou Faro), que se tornaram apenas cenário: bonitas, mas descaracterizadas. Vibrantes de visitantes, mas esvaziadas de vida local. Cidades onde o comércio tradicional deu lugar a franchisings e lojas de souvenirs, onde já não se ouvem vizinhos à janela nem se sente o cheiro da comida caseira ao final do dia.
É por isso que decidimos procurar outras cidades. Locais onde ainda se sente o país real. Onde há cafés com mesas de mármore e toalhas de papel. Onde os mercados municipais ainda são o centro das manhãs. Onde se pode dormir bem, comer melhor, e sentir que estamos num lugar com pulsação própria, não apenas um destino de Instagram.
Nesta série, sugerimos cidades portuguesas para viver 48 horas com autenticidade, prazer e tempo. Locais que combinam boa gastronomia, alojamentos com personalidade, e acima de tudo, vida local.

ÉVORA
A capital do Alentejo é uma cidade-museu viva. Entre vestígios romanos, pátios sombreados e ruas de cal branca, Évora mantém uma comunidade vibrante. Apesar de ser um dos destinos turísticos mais visitados da região, continua a ser vivida por estudantes, professores universitários, lojistas e moradores de sempre. Évora respira história, mas também reinvenção, com novos cafés, lojas de design e ateliês criativos. A cidade convida a passear com tempo, a entrar numa livraria escondida, a provar vinhos regionais e a conversar à sombra de uma oliveira centenária.
A presença universitária mantém a cidade jovem e viva ao longo do ano, e a tradição do artesanato, sobretudo cerâmica e tapeçaria reforça a identidade local. Passear pelo centro histórico é também descobrir pequenas oficinas familiares e sabores locais servidos com tempo.
ONDE COMER: Botequim da Mouraria, Fialho, Taberna Típica Quarta-Feira
ONDE DORMIR: The Noble House, ADC – Albergaria do Calvário, Évora Olive Hotel

VISEU
Com uma qualidade de vida invejável, Viseu tem sido várias vezes considerada uma das melhores cidades para viver em Portugal. É uma cidade acolhedora, sem trânsito nem pressas, com um centro histórico em pedra granítica, bem conservado, e uma programação cultural que vai muito além do esperado. Há novos espaços gastronómicos, uma crescente valorização da arte contemporânea, e uma relação muito equilibrada entre tradição e inovação. A envolvência natural e a gastronomia regional completam a experiência.
Os mercados semanais, as festas tradicionais como a Feira de São Mateus e os jardins públicos tornam Viseu uma cidade onde a vida quotidiana é um verdadeiro património. Aqui, o ritmo é calmo, mas a cidade nunca está parada.
ONDE COMER: Mesa d’Alegria, O Cortiço, Taberna do Dão
ONDE DORMIR: Pousada de Viseu, Hotel José Alberto, Bemyguest – Loft Guest House Jardim das Mães

BRAGA
Braga é uma cidade em expansão mas sem se perder. É simultaneamente uma das mais antigas e mais jovens do país: berço de tradições e epicentro de inovação. A cidade fervilha de ideias, com espaços criativos, cafés independentes e uma intensa vida universitária. Mas basta sair do centro para encontrar a calma dos parques e o pulsar de bairros residenciais onde se vive com autenticidade.
A Semana Santa ou o São João mostram como a cidade continua ligada às suas raízes, mesmo enquanto acolhe startups e novos espaços de cowork. Braga tem alma devota, mas também criativa, e essa mistura é o seu maior trunfo.
ONDE COMER: Arcoense, Cozinha da Sé, Tia Isabel
ONDE DORMIR: Burgus Tribute & Design Hotel, Vila Galé Collection Braga, Sé Guesthouse

TAVIRA
Talvez a cidade mais charmosa do Algarve, Tavira é uma raridade. A arquitetura permanece fiel ao seu passado árabe e a cidade cresceu com cuidado, respeitando a escala humana. Aqui, o ritmo ainda é marcado pelas marés e pelo sino da igreja. A ria, o mercado e os cafés são vividos por locais e visitantes, lado a lado, com naturalidade.
Apesar da procura crescente, Tavira conseguiu preservar o seu centro histórico e a envolvência natural da Ria Formosa. O investimento tem sido mais contido e criterioso, o que explica a sua atmosfera autêntica, distinta da voragem urbanística de outras zonas do Algarve.
ONDE COMER: D’Gusta, Ti Maria, Come na Gaveta
ONDE DORMIR: Colégio Charm House, Pensão Agrícola, Tavira House

FUNCHAL
Muito além dos cruzeiros e hotéis de luxo, o Funchal guarda uma vivência insular autêntica. A cidade é o coração da Madeira: onde a modernidade e o quotidiano se cruzam em ruas estreitas, mercados vibrantes e praças floridas. Os madeirenses vivem aqui, trabalham, estudam, celebram e isso sente-se na forma como a cidade acolhe. O turismo existe em grande número, mas não ocupa tudo. E essa convivência é rara e preciosa.
Apesar do crescimento turístico, o Funchal mantém vida própria. Fora da zona do Lido, mais turística, o centro histórico e bairros residenciais continuam vivos, com comércio local, mercearias e cafés frequentados por quem aqui vive. Como é uma ilha, os madeirenses não têm alternativa senão continuar a viver no centro e isso faz toda a diferença.
ONDE COMER: Armazém do Sal, Casal da Penha, Abrigo do Pastor
ONDE DORMIR: Castanheiro Boutique Hotel, Quinta da Casa Branca, Casa Velha do Palheiro

ANGRA DO HEROÍSMO
Num recanto dos Açores, Angra mantém uma alma rara. A cidade foi um dos mais importantes portos do Atlântico durante séculos e o seu traçado é Património Mundial. Mas o que a distingue verdadeiramente é a vida quotidiana: um café ao fim do dia, um cortejo religioso, a simplicidade com que as pessoas se cumprimentam na rua. Há história em cada beco, mas há sobretudo humanidade.
A vida cultural pulsa nas festas do Espírito Santo, nas touradas à corda, nos concertos no Teatro Angrense. E é essa ligação à comunidade que mantém Angra viva, mesmo longe do continente, é uma cidade que vive de dentro para fora.
ONDE COMER: A Barrica, Tasca das Tias, Taberna Roberto
ONDE DORMIR: Pousada Forte São Sebastião, My Angra Charming House, Hotel Zenite

SETÚBAL
Setúbal surpreende. A cidade industrial reinventou-se nos últimos anos com uma nova energia criativa e gastronómica. O centro ganhou vida, as ruas estão mais bonitas, o mercado está de novo cheio. E depois há o Sado, as praias da Arrábida, os ferries para Tróia, tudo a dois passos. Setúbal é autêntica, marítima e cheia de tempero.
É também uma cidade que se liga profundamente ao seu mar, desde o peixe fresco na lota ao vaivém dos pescadores locais. Os cafés do centro têm sotaque setubalense e os almoços estendem-se em conversas longas. A arte urbana e as galerias independentes mostram que a cidade não parou no tempo, está a renascer.
ONDE COMER: Casa Santiago, Xtoria, O Batareo
ONDE DORMIR: RM Guest House, Hotel Casa Palmela, Boca de Lobo Guesthouse

AVEIRO
Conhecida como a “Veneza Portuguesa”, Aveiro é uma cidade de canais serenos e moliceiros coloridos, onde a água dita o ritmo da vida. O seu centro histórico combina a elegância da Arte Nova com a identidade única da paisagem lagunar, praças soalheiras e cafés onde ainda se fala com tempo. Há salinas, ovos-moles, bicicletas e fachadas que nos surpreendem.
Aveiro é também uma cidade universitária, onde a irreverência estudantil convive com tradições marítimas profundas. Aqui, o quotidiano não desapareceu com o turismo continua presente nas mercearias, nos cafés, nas marinhas e nos mercados. Pequena, sim. Mas com ambição, leveza e identidade a cada esquina.
ONDE COMER: Salpoente, O Bairro, Maré Cheia
ONDE DORMIR: Melia Ria, 1877 Estúdios, Histórias Por Metro Quadrado

COIMBRA
Coimbra é feita de pedra e de pessoas. Tem poesia, ciência e memória. É um lugar onde o tempo caminha entre o fado e os cafés literários, os pátios secretos e os estudantes de capa negra. Mas também se transforma, com novos espaços criativos, bares descontraídos e uma ligação cada vez mais forte ao Mondego.
A vida estudantil molda os hábitos, os horários e a alma da cidade. A tradição académica convive com a boémia dos bares do Quebra-Costas e os jantares partilhados nos quintais. Coimbra é ao mesmo tempo saudade e descoberta, um lugar que sabe viver com emoção.
ONDE COMER: A Cozinha da Maria, Refeitro da Baixa, Zé Manel dos Ossos
ONDE DORMIR: Sapientia Boutique Hotel, Hotel Quinta das Lágrimas, Solar Antigo Luxury Coimbra

GUIMARÃES
Aqui nasceu Portugal, e sente-se. Mas Guimarães é muito mais do que a sua herança fundadora. É uma cidade cosmopolita e criativa, com uma comunidade ativa, espaços alternativos, arte contemporânea e orgulho em cada detalhe. A zona histórica é lindíssima, mas o que mais impressiona é o modo como a cidade soube transformar o seu passado numa plataforma para o futuro.
Além do centro medieval, há bairros renovados com pequenas lojas e ateliers, e o Centro Cultural Vila Flor como epicentro da vida cultural. Guimarães é uma cidade onde se pode parar, ouvir e pertencer, mesmo que só por um fim de semana.
ONDE COMER: A Cozinha por António Loureiro, Cor de Tangerina, Ar Belo
ONDE DORMIR: Pousada Mosteiro de Guimarães, Casa do Juncal, Hotel da Oliveira
São lugares onde podemos ser visitantes sem deixar de ser viajantes atentos.
Onde ainda vale a pena perder tempo?
Estas cidades estão a mudar, sim. Mas ainda têm alma, e tempo. São lugares onde podemos ser visitantes sem deixar de ser viajantes atentos. Onde o turismo não (ainda) engoliu o quotidiano. Onde 48 horas chegam para descansar… e para voltar a sentir que Portugal é feito de mais do que modas.
Viajar com tempo, com gosto e com respeito. É esse o espírito desta escolha.
Próxima paragem? Talvez a tua nova cidade favorita esteja a dois comboios de distância.