Lisboa, 1755: o terramoto que abalou Deus, o mundo e a razão
Por Álvaro Reis
Num só instante, a terra tremeu e com ela, a fé, a razão e a ordem do mundo.
O terramoto devastou a cidade, mas abalou também a consciência europeia.

“Lisboa era uma cidade de padres, prostitutas e palácios.”
Voltaire
A cidade antes do abismo: ouro, luxúria e contradição
No dia 1 de novembro de 1755, Lisboa era uma capital do império e também um espelho das suas contradições. Banhada pela luz do Tejo e pelo ouro do Brasil, era uma cidade opulenta, devota, supersticiosa e decadente. O coração do império pulsava em igrejas barrocas, conventos, palácios e tavernas. A fé era ostensiva, mas o fervor convivia com vícios públicos, desigualdades gritantes e uma sensualidade mundana que desconcertava os estrangeiros.
Voltaire, que escreveria sobre o desastre com mordacidade lúcida, diria que “Lisboa era uma cidade de padres, prostitutas e palácios”. A cidade era frequentada por viajantes e intelectuais que se encantavam com o exotismo do sul católico e simultaneamente se horrorizavam com a violência inquisitorial e o fausto clerical. Era, para muitos, um símbolo da riqueza colonial europeia e das suas ambiguidades morais.


O terramoto como metáfora do mal
O tremor de terra, seguido de incêndios e um maremoto, destruiu quase por completo o centro da cidade e matou cerca de 60 mil pessoas. Mas o que se seguiu foi mais do que uma tragédia natural foi um abalo na estrutura de crenças do Ocidente. Como escreveu Vasco Graça Moura, “o demónio do medo nunca tenha espalhado tão depressa e com tanta força o seu calafrio sobre a terra”.
Goethe, que tinha seis anos à época, recordaria o impacto em Dichtung und Wahrheit como um primeiro confronto com a dimensão metafísica do sofrimento. A calamidade tornou-se objeto de reflexão universal: filósofos, poetas e teólogos reagiram em cadeia.
O otimismo racionalista de Leibniz, com a sua teoria de que “vivemos no melhor dos mundos possíveis”, foi posto em causa. Voltaire, em resposta, escreveu o poema Poème sur le désastre de Lisbonne (1756), atacando ferozmente a ideia de Providência e acusando a teodiceia de ser cruel e cega.
"Dirão que tudo corre segundo a ordem eterna?
Que o mal é um bem comum, e que Deus não pode errar?
Que o grande Deus no governo deste mundo,
(Sempre faz o pior?)"
— Voltaire

©O Terramoto de 1755 (1756-92), João Glama (MNAA)
Deus, o Diabo e o castigo de uma cidade
Em Portugal, a narrativa dominante foi a do castigo divino. A Inquisição reforçou a doutrina do pecado. Frei Manuel da Epifânia pregava que a catástrofe fora resultado da ira divina. A linguagem teológica substituía o discurso científico. Muitos viam no incêndio das igrejas e na morte dos fiéis a mão de Deus a punir uma sociedade moralmente decadente.
Como nota o ensaio de Graça Moura, “não escassearam os sermões, as prédicas de castigo, as penitências públicas”. Lisboa tornou-se palco de expiações. O sofrimento humano foi usado como teatro da culpa. Era o tempo em que o Mal ainda se explicava com o Diabo e os tremores de terra com a cólera de Deus.
Era o tempo em que o Mal ainda se explicava com o Diabo e os tremores de terra com a cólera de Deus.

Uma Europa em debate: razão versus fé
Fora de Portugal, o terramoto provocou um abalo intelectual. Immanuel Kant, então um jovem pensador, escreveu três pequenos textos sobre o fenómeno, tentando uma explicação científica baseada em causas naturais e não metafísicas. Para Kant, o desastre foi um estímulo à racionalidade empírica.
Rousseau respondeu a Voltaire, num tom mais ponderado, defendendo que os homens sofrem menos por causa da natureza do que por viverem em cidades densamente povoadas. Era o início da crítica ao progresso urbano como causa indireta do sofrimento moderno.
Alexander Pope, David Hume e outros autores debateram a questão do Mal com novo vigor. O terramoto de Lisboa tornou-se símbolo da instabilidade do mundo, da limitação humana e da falência de explicações totalitárias.
Fora de Portugal, o terramoto provocou um abalo intelectual.

Lisboa reconstruída e a modernidade nascida dos escombros
Sob a liderança do Marquês de Pombal, Lisboa foi reconstruída com um espírito novo: racional, iluminista, urbanístico. Surgiu a Baixa Pombalina, com ruas ortogonais, normas de segurança sísmica e uma ideia de progresso racionalista que contrastava com a desordem barroca anterior.
O projeto da reconstrução foi também um projeto político. A ordem do Marquês, “Enterrem os mortos e cuidem dos vivos”, tornou-se o mantra de uma nova época. O Portugal que renasceu do terramoto era menos místico e mais moderno, menos clerical e mais laico.

A herança filosófica: entre o caos e o sentido
O terramoto de 1755 não foi apenas um evento geológico. Foi, como escreveu Theodor Adorno, um “marco fundacional da modernidade”. Foi o momento em que o homem ocidental deixou de confiar cegamente no sentido do sofrimento e passou a exigir respostas.
A partir de Lisboa, o mundo descobriu que Deus podia calar-se diante do horror. E que talvez o sentido tivesse de ser construído e não revelado.
Fontes e referências principais:
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- Vasco Graça Moura, Poema sobre o Desastre de Lisboa (Assírio & Alvim, 2005)
- Voltaire, Poème sur le désastre de Lisbonne (1756)
- Goethe, Dichtung und Wahrheit
- Immanuel Kant, Sobre as causas dos tremores de terra (1756)
- Theodor Adorno, Dialética Negativa
- Rousseau, Carta a Voltaire sobre o Terramoto de Lisboa (1756)
- António Vieira, Sermões (referências indiretas sobre castigo e providência)
- Alexander Pope, Essay on Man (citado em textos da época)
- “Lisboa após o terramoto” (gravura alemã séc. XVIII)